Cada pessoa lida com uma crise de maneiras diferentes, uma delas é se sobrecarregar ao máximo de afazeres para evitar até pensar sobre o que está acontecendo ou algo que se passou. Eu sou uma delas. Tudo começou nos meados do ano de 2012, quando meu pai queixou-se de dor no dente e da mesma se desencadeou em ferida ou "calo" na língua. Nesse meio tempo, conheci um menino da escola, fazia o terceiro ano do Ensino Médio, apelidava-o de nerd, devido os seus conhecimentos na área tecnológica e que por sinal sou um desastre no assunto! Não entendo e nem tento me fazer compreender. Não tínhamos lá nada a ver um com o outro, mas mesmo assim sem saber o porquê, tornamo-nos amigos.
Chegamos então no ano de 2013. Muita pressão envolvida: ano de vestibular. Mal eu sabia que isso era apenas a ponta do iceberg. Papai continuava reclamando sobre a dor e foi ao médico, após tratamento, notou que sua língua não melhorava e voltou a fazer exames até que veio a notícia que assustou a todos: câncer. Eu nem queria, mas já comentando como descobri gostaria de ressaltar que meu irmão foi idiota (amor fraterno é tão fofo) até numa hora dessas. Estava almoçando para ir assistir aula e puxei o assunto sobre o que estava acontecendo, pouco antes de acabar de comer ele se vira para mim e diz "Não tá sabendo? Meu pai tá com câncer.". U-a-u! Que modo delicado de contar, hein. Minha cabeça ao chegar na aula estava um turbilhão de pensamentos. E foi a partir desse dia que o medo de perder uma das pessoas que mais amo na vida começou a me perturbar diariamente.
Lauro e eu estávamos cada vez mais próximos, até que no dia 16 de fevereiro ele me convidou a ir numa festa com ele na casa de uma menina bem mais nova da nossa escola. Não queria ir e nem sentia entusiasmo ao pensar sobre, mas resolvi telefonar e dizer que estava me arrumando e fui assim mesmo, sem razão ou querer. Parece coisa de gente bipolar, não é? "Eu odeio ser assim, é muito bom". Chegando lá, lembrei-me do trecho da música de Legião Urbana, era uma festa estranha com gente esquisita e não estava legal. Do meio pro fim me enturmei com alguns amigos dele e estava intrigada com a cordialidade daquele menino. Perguntava a mim mesma o que diabos fazia ali com ele, mas estava achando bom e permaneci na minha.
O tempo passou sem que notasse, logo teria que me despedir e voltar pra casa. Estávamos na entrada da casa, em frente a porta e de repente por alguns minutos nada ao nosso redor parecia estar ali. Não ouvia ou prestava atenção e o vento frio me fazia ficar encolhida cada vez mais. Ele me fitava com os olhos e conversávamos. Ao me despedir e chegar em casa, trocamos mensagens a madrugada inteira e por volta das 5h da manhã ele me diz que gostava de mim há muito tempo e que ao falar sobre uma certa garota, ela era eu, eu era ela e essa coisa toda. Inicialmente fiquei confusa com tudo e preferi evitar pensar sobre o assunto por um tempo. No outro final de semana, uns amigos combinavam assistir filme. Ele falou que estaria lá e eu comentei que nos veríamos então. Não sei como isso aconteceu, mas quando notei lá estávamos todos nós comprando o bilhete para assistir ao filme João e Maria: Caçadores de bruxas (sim, ainda lembro).
Ficou achando que ele sentou ao meu lado, botou a mão na minha, trocamos olhares e nos beijamos? Se sim, está redondamente enganado. Nada disso, graças ao meu amigo que sentou ao meu lado assim que eu encostei na cadeira. Confesso que achei engraçado e adorei a situação. Achei melhor como foi, teria sido bem chato se acontecesse algo, sendo que convidei o Carlos para me acompanhar naquele sábado. Todos se despediram e Lauro ficou para pegar carona comigo. Fomos em direção ao estacionamento do shopping e ambos se encostaram no carro até que ele segura a minha mão e a coloca em seu peito. Fiquei assustada. Seu coração batia tão forte que parecia que a qualquer momento saltaria pela boca. Até que ele pergunta se eu sabia o motivo de estar daquela forma e já foi respondendo, era eu. Aquele dia 23 de fevereiro ficou marcado. Um mês depois contamos a todos que estávamos namorando. Resumi bastante o início de tudo, mas estava feliz em saber que em meio a tantos problemas e desencontros, encontrara alguém ou alguém me encontrava. Encontramos um ao outro.
Quimioterapia e radioterapia todos os dias com exceção finais de semana durante cerca de cinco meses não é fácil e meu guerreiro Antônio estava firme e forte. Perdia os cabelos e peso, mas a vontade de viver, fé e vaidade permaneciam intactas. Passou a evitar sair de casa e isso preocupava a todos uma possível depressão devido a doença e seus acompanhantes. Era muito difícil vê-lo se transformar noutra pessoa. Era muito difícil vê-lo pedir ajuda para se levantar ou fazer algo. Uma pessoa que sempre ajudou os outros, dessa vez era ajudada por nós. Era muito difícil vê-lo chorar de dor e nada poder fazer a respeito além de me trancar num quarto e chorar até cansar, depois de pedir a Deus que o fizesse ficar bem novamente. Era muito, muito difícil mesmo ver que não era um dia ou outro, mas uma rotina. Algo que eu deveria aprender a lidar dia pós dia. Ainda assim cobrava em dobro de mim e estudava sempre que conseguia, independente dos horários.
Chegamos em julho e as férias se aproximavam. Não me recordo da data, mas dele indo me buscar com minha mãe Cândida, vira-se pra mim com uma cara de felicidade e mostra a alta da quimioterapia. Teria que fazer por uns dias a radioterapia, mas aquilo já era um grande avanço e alívio para todos nós. Sorri de volta e disse que era ótimo. Fiquei tão feliz por ele ter dividido aquela felicidade e entusiasmo comigo diante de tudo. Era tão confortante. Pouco tempo depois ele acabou totalmente o tratamento, após isso só deveria ficar indo fazer exames de rotina regularmente. Parecia que a calmaria tomava conta. Pulando uns meses, fiz minha prova de vestibular e não gostei muito. Fiquei decepcionada comigo mesma e o resto do dia trancada no quarto sem falar com ninguém. O que por fim amenizava era saber que meu pai estava livre dessa maldita doença.
Ao acabar o tratamento, um mês passou e ele não ganhou peso. Dois meses passaram e ele não ganhou peso. Três meses passaram e ele não ganhou peso. Ficamos nessa expectativa até depois do resultado, passei para Ciências Biológicas e ele me pediu para cursar assim como todos os meus familiares. Decidi que cursaria sim e cheguei a fazer a primeira matrícula, até que papai intrigado voltou ao médico. Fez uma bateria de exames e ao retornar, teve a infeliz notícia de que estava com tumores pelo corpo e teria que fazer outro tratamento. Ninguém conseguia entender como foi tão rápido e sem alardes daquela forma. Era revoltante. O dono da clínica ao ver os exames dele se admirou com a gravidade e conversou com ele até. A nossa família ficou cinza depois daquele dia. O medo tomou conta de todos. Escutá-lo chorar para minha mãe e não enxergar mais o meu pai naquele homem era devastador pra mim.
Estava a mil e odiando o mundo. Lauro era ótimo pra mim, apoiava, mas em troca disso começamos a brigar sem parar e por coisas tão pequenas (não preciso fazer uso de outros parágrafos para contar o desfecho, creio). Eu confesso que nunca fui boa de lidar, mas diante de tudo o que eu mais queria era descarregar tudo que sentia chorando ou seja lá como fosse. Ele deu a palavra de que estava ao meu lado pra isso, mas na prática não era assim e isso me magoava tanto. Corria para os braços dos meus amigos ou me isolava guardando pra mim mesma. Não queria ficar o tempo inteiro fazendo alguém escutar meus dramas e lamentos sobre isso tudo. Pra ser sincera, não sabia o que fazer sobre nada. Só queria me manter aguentando, seja como fosse. Por exemplo, desde dezembro de 2013, ajudei a fundar um grupo voluntariado, no qual sou administradora até então. Para evitar pensar em agir, atolei-me em afazeres. Prazo de fazer a segunda matrícula na universidade passou, mas deixei passar. Não estava em condições de ir atrás disso e nem teria como ficar me deslocando com ônibus, pois teria que pegar dois pra ir e para voltar, sem falar na periculosidade. Ir de carro seria o mais viável, mas como papai teria que recomeçar outro tratamento, ficava impossível funcionar.
Esperamos algumas semanas e a doutora Renata disse que o tratamento funcionaria da seguinte forma: internação para receber a quimioterapia por uma semana e 28 dias em casa, permanecendo assim por uns meses. Antes disso, seria necessário mais outros vários exames e analisar melhor o caso dele. Mais tumores e desta vez estavam ainda mais espalhados. Um deles estava afetando um dos pulmões. Era mais sério do que pensávamos e ninguém sabia o que fazer além de tentar apoiá-lo como podíamos. Chegou fevereiro de 2014 e ele deveria começar o quanto antes. Vi-o animado em iniciar essa tortura toda de novo, para assim ficar bom logo, assim dizia. Quanta força numa pessoa só! Esse era meu pai, batia no peito ao pensar assim. Sempre admirei ambos, mas diante disso tudo, admirava-o ainda mais. Chegou a primeira semana de tratamento, todos levantaram cedo, mas eu não fui deixá-lo no hospital para não atrasá-los. Abracei-o com cautela diante de seu corpo magro e frágil, olhei em seus olhos e disse que não era para ele se preocupar, porque daria tudo certo.
A gente nunca sabe qual será a última vez a ver quem amamos, não é mesmo? Primeiro dia passou. Segundo dia passou. Terceiro dia passou. Tentei fazer dar certo ir vê-lo, mas a rotina estava difícil de conciliar tudo aqui em casa e acabei adiando. No quarto dia dele internado, minha mãe liga com bastante tristeza na voz e diz que ele passou mal. Sentiu insuficiência respiratória, mas os médicos o ajudaram e ele estava bem. Dei minha palavra que na manhã seguinte iria bem cedo pra lá. Ela me ligou às 6h da manhã, acordei mal-humorada achando que era para acordar meu tio de novo, mas não era. Avisou que novamente ele sentiu dificuldade para respirar e que teria que ir para UTI. Apressei meu irmão e corri para tomar banho e ir lá ficar com a mamãe e vê-lo. Debaixo do chuveiro o telefone não parava de tocar, corri para atender. Número da minha mãe, mas não era ela na ligação e havia choro no fundo. "Juliana, eu tô aqui com a sua mãe e tenho uma notícia nada boa para lidar. Olha, presta atenção, por favor e tenta vir pra cá o mais depressa possível, mas... Juliana... seu pai entrou em óbito. Ele faleceu."
Óbito. Óbito. Não conseguia respirar, sequer pensar. Desliguei e gritei sem parar pelo meu irmão. Ele me viu descabelada, molhada e chorando sem parar. Pediu sem parar para que eu dissesse que não era verdade. Nunca me imaginei tendo esse momento com meu irmão. E foi assim que perdi uma das pessoas que mais amo na minha vida, meu pai. Há quem diga que com o passar do tempo tudo melhora, mas isso é uma mentira. Não melhorou. Dói tanto. Pulando acontecimento póstumos, antes da missa de sétimo dia eu deitei e tive o sonho mais lindo de todos. Ele aparecia para mim e estava com um semblante pacífico e alegre, dizia que me amava tanto e eu falava o mesmo. Disse outras coisas que me deixaram deprimida por não ter dito a ele e foi tão bom. Abraçamo-nos e ele foi sumindo aos poucos. Dane-se a crença alheia. Era real. Ele estava comigo. Sei disso. Pode ser que nunca mais aconteça isso novamente, mas me conforta saber que ele está em paz e bem, aonde quer que esteja. Ah!, meu pai. Que saudade imensa aqui dentro. Não sabe em mim.
Encontrei-me no fundo do poço e para negar tudo que estava frente a mim, ocupei-me até choramingar de cansaço e sentir que não aguentava mais, mas ainda assim cobrava o dobro de esforço e continuei. Sobrecarreguei-me além do normal. Cá estou me sentindo da mesma forma quase quatro meses depois de que tudo aconteceu, senão pior. Uma das coisas mais difíceis que temos que nos acostumar ao perder um ente querido, é saber que terão tantos momentos em que essa pessoa fará falta mais do que o normal do dia a dia. Meu aniversário está chegando e esse é o primeiro momento sem meu pai. Dezoito anos. Imaginei tantas coisas para esse dia e nada farei. Trocaria tudo por um abraço dele de novo. Ou ao menos outro sonho. Trocaria tudo para tê-lo aqui fazendo suas invenções, brincadeiras e brincando com a mamãe até ela se zangar e mandá-lo cheirar "biloto", deixando-o curioso em saber o que diabos significava isso. Trocaria tudo para fingir estar dormindo e esperar que ele me pegasse no braço e trouxesse à cama, como fazia quando eu era uma criança. Trocaria tudo para escutá-lo dizer que eu parecia uma índia com olhos da cor de jabuticaba de tão negros. Trocaria tudo para brincar junto sobre a tal tribo "tacaquero". Trocaria tudo para ver ele e a mamãe competindo sobre quem era o chefe e submisso da casa.
Seria hipocrisia da minha parte dizer que tivemos uma vida linda e feliz em família juntos, mas todos os momentos incluindo ruins ficarão sempre em minha memória, pois graças a isso eu sou o que sou hoje.Se eu sou racional, pareço mamãe. Se eu sou estressada, pareço papai. Sou uma mistura dos maiores presentes da minha vida. Retomando, cada pessoa lida com
uma crise de maneiras diferentes, uma delas é se sobrecarregar ao máximo
de afazeres para evitar até pensar sobre o que está acontecendo ou algo
que se passou e eu sou uma delas. Sabendo nadar, deixei-me afundar nesse mar e não consigo emergir. Não adie para amanhã o que você - além de poder - deve lidar agora, pois já dizia o poeta, aproveite cada minuto já que o tempo não volta e o que volta é essa vontade de voltar no tempo. Por isso, uma crise de cada vez. Em frente. Enfrente. Sentido(r)!